Conhecimento do ofício

Em Eymard, sempre se manifestou uma “luta permanente com a superfície, só amenizada por irrupções de afetividade e lirismo”, segundo Walter Sebastião. Muitas vezes já me reportei a uma frase de Braque para balizar algum artista:“Amo a regra que corrige a emoção”. Vejo que a Eymard Brandão a frase se aplica, desde que invertido o sentido do vetor. Não há dúvida de que, como sempre, sua obra atual ama uma leve emoção que corrija a regra. De tudo resulta uma arte extremamente limpa e apurada, sem nenhuma contaminação da sujeira ou peso que os detritos industriais possam ter carregado, na origem. O conhecimento do ofício, a experiência, a coerência, o gosto seguro estruturam as superfícies em sóbrias e bonitas construções, nas quais o material se integra com toda a eficácia e nobreza. É verdade, pode-se, sim, fazer arte com quase tudo – desde que se tenha a seriedade e o talento para tanto.

 

Olívio Tavares de Araújo

Crítico de arte

São Palo, 2011

 

 

 

 

 

 

OS COMBATES DA PINTURA

As últimas pinturas de Eymard Brandão impõem uma imagem: luta permanente com a superfície, só amenizada por “irrupções” de afetividade e lirismo.  Sobre a aspereza de ranhuras explícitas, construídas por sucessivas aplicações e raspagem de camadas de tintas, formas (ou restos de formas), cores (ou lembrança de cores), símbolos (ou sugestões de símbolos), dão corpo a um discurso ostensivamente plástico. O princípio básico da ordenação é simples: por trás de um elemento existe sempre outro em progressão infinita.

Trabalhando superfícies muitas vezes ao modo de um pintor de paredes, oartista nos traz o tema da memória da cor, onde resíduos coloridos criam ritmos tensos e urbanos. Em contato com estas imagens a vontade é recusar toda referencialidade, deixando a visão aberta apenas para o combate do pintor com forma, matéria e linguagem “per si”. Brandão bloqueia percepções estritamente formais de sua obra, afirmando o interesse pela beleza no ato de pintar e raspar, construir e destruir, esconder para então revelar.

 

Walter Sebastião

Crítico de arte e jornalista do “Estado de Minas”

Belo Horizonte, 1999

 

 

 

 

 

 

GESTOS TRANSFORMADORES

O que a psicanálise colocou em seu centro, a arte tem no seu início, no que a antecede e no seu final e o expõe: um vazio.

A arte caracteriza-se por um certo modo de organização em torno do vazio. De um vazio-causa que pulsa, que insiste, que exige trabalho, que faz dos resíduos, matéria prima, o artista, na sua criação, transforma os objetos em “outra coisa”, desvirtua-os, fazendo-os surgir na dimensão de uma outra dignidade.

 O objeto artístico é instaurado na relação com este vazio, presentificando-o, enquanto tenta fazer-lhe borda, retornando ao artista, do seu gesto-sujeito, singular, como estranhamento, deixando correr os seus efeitos.

 Derramados da obra ao público, intencionais ou não, os efeitos do trabalho de Eymard Brandão, em “Arte em resíduos”, conduzem do belo à inquietação do mais além dele.

 Há uma ferida exposta, não “curada”, que a arte mantém aberta, enquanto enlace com o real, ao apresentar os “refugos” da sociedade industrializada, que esta mesma sociedade tenta desconhecer.

Cumpre-se aqui o que faz do objeto uma obra. A arte sustenta o desejo e abre vias a outros gestos transformadores.

 

Angela Porto

Psicanalista

Belo Horizonte, 2010

 

 

 

 

 

 

DESENHO COMO SISTEMA E PROCESSO COMUNICACIONAL:

A MATERIALIDADE SIGNIFICANTE

 

Mestrado em comunicação semiótica

 

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA

SÃO PAULO – 2003

 

Joyce Maria B. S. Ferreira

 

CINÉTICO NA MEMÓRIA DA PAISAGEM DE EYMARD BRANDÃO

 

Os fenômenos dinâmicos adquirem sua unidade de mim

 que os vivo, os percorro e faço sua mente.

Maurice Merleau-Ponty

 

A serie de desenhos de Eymard Brandão que levam nos seus títulos a palavra memória como o que escolhemos para analise, mostram uma dinâmica singular que se apresenta sempre como elemento aprisionado dentro do espaço da obra. Quando olhamos estes desenhos, vemos neles o dizer de Merleau Ponty pois “vivemos” o fenômeno do movimento através do grafismo que o artista constrói e que se estrutura em contrastes muito definidos de pretos, cinzas e brancos.

Num primeiro momento, na imediaticidade da visão temos um desenho composto por planos geométricos que na sua organização aponta para uma figuratividade que pode ser uma abstração das figuras do mundo, mas que gera efeitos de sentido ambíguos.  Nos sistemas semi-simbólicos, nas correlações entre plano de expressão e plano do conteúdo, conforme Barros, certas categorias ocorrem tanto como figuras da expressão, plásticas ou poéticas, tanto quanto figuras do conteúdo, reconhecendo assim, dois procedimentos semióticos diferentes de ‘concretização’ de conteúdos temáticos abstratos. “Memória da Paisagem” apresenta um conteúdo temático que se confunde – um simulacro que constrói uma espécie de figuratividade e que se neutraliza na relação entre figurativo e plástico. Daí a ambigüidade que sentimos ao ver a imagem, que é reafirmada pelo título. Neste fazer o verbal circunscreve o visual, delimitando-o com precisão.

Será que nesta espacialidade construída com planos e manchas, que colocam o observador diante de uma obra estruturada simetricamente, existe alguma paisagem a ser vista? Como nesta estrutura plástica uma figuratividade recobre o tema?

O cobrir o papelão com tinta e grafite e depois descobrir a camada de grafite com a borracha, num manchar e des-manchar, realiza-se pelos procedimentos pictórico e gráfico.

O apagar da borracha e cobrir o papelão com tinta preta e fosca, fazeres estruturantes no plano da expressão do desenho, serão também homologados no plano do conteúdo no percurso temático do aberto vs fechado, da expansão vs retenção, do avanço vs recuo.

Esta temacidade, identificada no desenho e na sua relação com o título, e o desmanchar que está no plano de expressão como uma gestualidade, concretiza o desmanchar da memória. Este também seria um caminho do significar a obra. O enunciador constrói e desconstrói, esconde para então mostrar o que da memória da paisagem é incerto, mas se move na sua direção que é a nossa mesma, de quem olha este desenho. Neste aqui e agora em que o enunciatário é instalado, mancha e desmancha o atuar da memória que se dá diante dele pelo seu olhar.

Os materiais, pigmento, borracha e suporte, articulados na gestualidade do artista, indicam uma forma e uma matéria dinâmica e a partir dos modos como o desenho se impõe ao sujeito observador, instauram neste uma apreensão pelo sensível e fazem seu olhar reagir, “viver, percorrer e fazer a síntese” desse movimento, do sentido latente que há na imagem, ressemantizando-a.

Voltando ao verbal do título da obra, seria a luz vivificações da memória aprisionada, uma metáfora do que se retém detendo? Bergson escreve que na “concorrência instituída entre o estável e o instável, a percepção sempre destituirá a lembrança-imagem, e esta por sua vez, destituirá a lembrança pura” e conclui que esta última desaparece totalmente e a vida se resumirá inteiramente nos elementos sensação e imagem. O cinetismo na “Memória da Paisagem” de Eymard Brandão dinamiza o da paisagem da memória. .

 

Joyce Maria B. S. Ferreira

Mestre em Comunicação Semiótica pela PUC-São Paulo

Profª do Centro de Arte da UFES

 (resumo do cap. IV da tese de mestrado da autora)

São Paulo, 2003

 

 

 

 

 

 

SPERANDA

O título ATRÁS DA FORMA quer reiterar discursivamente a PRESENÇA (invisível) que o negror crudo e rudo do primeiro plano pretendeu subtrair. O grau zero da denotação enseja, pela não referência expressa, milhentas possibilidades de compensações imaginativas.

Mais decisiva, contudo, é a conotação filosófica do quadro, que o integra na veneranda sabedoria do silêncio. O não dizer para melhor dizer de Eymard Brandão, lembra primeiro a musicalidade contida nas pausas e vazios de uma certa arte chinesa, onde mercê de um Taoísmo latente considera-se “o não existente com tanta significação como o existente”

Testemunha a seguir a verdade da grande descoberta da arte oriental que só reconhece a consumação plena  da obra  quando ela  se  deixa  alcançar   pela   e s t e s i a (não exclusivamente estética)  do espectador. Trai, enfim, a concepção dos que sabem que “por detrás da forma” artística há uma essencialidade (invisível para os olhos) que é mais funda que a própria arte.

Eymard: te dou de presente a palavra SPERANDA que eu pude ler no repertório de silêncio dos seus quadros. Nele, mais que mirablia, eu vejo “as coisas que merecem nossa esperança”. E que podem acaso desterrar o “inverno” de nosso tempo roto, poído, poento.

 

Moacyr Laterza

Filósofo, escritor e professor de estética e filosofia na UFMG e UEMG

Belo Horizonte, 1987

 

 

 

 

 

 

Eymard Brandão: uma poética do material

Ácido nítrico, reboco, construção de obra. Camadas superpostas, palimpsestos que se apagam e logo após se imprimem. Desconstrução das camadas e a nova escritura plástica aparece nesse processo transgressor da pintura. O artista inventa formas, lugares outros.

O que inventa Eymard Brandão? A impressão do que resta. Integrando materiais e deslocando-os. Na desconstrução nasce a obra, o texto a ser lido pelo espectador, numa vertigem de impressões. Paisagens dissolvidas pela força dos deslocamentos. Pinceladas e raspagens traçando objetos para serem vistos. As telas se diferenciam no material. As rolhas do melhor vinho tomado são parte da vida, e por isso devem ser aproveitados na criação. São carimbos. Saturar também faz parte da vida, por isso a arte faz saturar os materiais e suas técnicas. A poética transfigura os objetos que estão no mundo e o artista sabe como manejar as técnicas que o material exige, criando outros lugares.

E é desses lugares que nos olha o objeto artístico, feito de reboco e pó ou marcas de rolha. Sem titulo, os signos são mais permeáveis ao sentido.

Nenhuma anotação para guiar o espectador. Somente a tela furando os olhos, pois o material é duro. Criaturas vivas, os quadros liberam a cor que transforma o olhar. Tentação interpretativa. O artista não dá pistas. Sentir é o melhor a fazer. Tocar se possível, para ver. Tocar o pó que virou matéria dura enrijecendo ou amolecendo o contato. Ao mesmo tempo longe e perto. Imagens aderentes, palpáveis, para que a mão se emocione.

Meu corpo se movimenta para melhor ver, tocar as marcas dos restos, das sobras, da ruína do material, que o artista preparou para a tela. Criar talvez seja mesmo destruir. No mínimo, marcar, imprimir o gesto da construção.

Visibilidade e invisibilidade. A pintura de Eymard Brandão se diz na ordem da textura das formas. Construção pelo pó e destruição da superfície da tela. Dialética da visibilidade que a cor parece sublinhar em sua densidade e ritmo. Haveria uma gramática da cor, quando a diferença se faz pela ruptura?

O visível me inquieta como a letra, o rabisco da letra ao se inscrever no corpo da página. A tela, no movimento incessante de cada material sobre ela inscrito, se desdobra em imagens. A mão pungente a cada pulsação de um pincel desfeito em formas variadas vai percebendo o que o olho não dá conta. Ductus é a ordem na qual a mão traça diferentes traços que compõem uma letra e o sentido segundo o qual cada traço é executado. O ductus é o gesto humano em sua imensidão antropológica, dirá Roland Barthes. Com o traço, um outro gesto que como  a letra manifesta a natureza manual, operatória e corporal.

A mancha, registro dos gestos se expande pelo ritmo. O olho se refaz na imersão da cor. O tecido na madeira é rasgado pelo material e a técnica vai esgarçando como se fosse um véu que aparece diante de nossos olhos ávidos de imagens.

O ato de pintar, gravar no espaço do suporte e a impressão, constroem o universo da tela. Os materiais inusitados das gravuras, as formas e seus sentidos criam imagens que não necessitam de adjetivos para apontar o trabalho de Eymard Brandão. Ele não é pintor, não é gravador, ele é simplesmente tudo o que nosso imaginário permite representar quando se diz: ele é um artista...

 

Vera Casa Nova

Professora da Faculdade de Letras da UFMG/ Pesquisadora do CNPq

Doutora em Semiologia pela UFRJ

Belo Horizonte, 2006

 

 

 

 

 

 

MURAIS DAS MINAS

Um homem caminha – metade bêbado, metade equilibrista – sobre os paralepípedos do meio fio, entre os pedestres e os automóveis, na caçada da rua.  Essa é, a meu ver, a metáfora concisa das obras de Eymard Brandão. Tudo aqui é, ao mesmo tempo, tenso e frágil; o artista persegue a integridade e a harmonia de um espaço através da aproximação de formas e situações antagônicas. Esse é o desafio, esse é o jogo.

 

a) a ordem e o caos: o trabalho executado aparenta racionalidade, espírito objetivo. O processo é, entretanto, regido pela emoção, pelo sensível. O artista elabora uma poética onde a sensibilidade dos meios acaba por revelar uma estrutura complexa, cheia de mistérios, de sons... e de silêncios. Esse é o processo, esse é o caminho em busca da síntese, claro enigma. As superfícies amplas e limpas criadas pelo grafite dialogam com a aspereza dos materiais colhidos pelas ruas, garimpo e aventura em busca do tempo, material reciclado pelo olhar e pelo pensar contemporâneo. E essa reunião entre elementos aparentemente distintos que identifica a obra de arte.

 

b) a paisagem e a matéria: o trabalho é a sua epiderme. E ela trata de matéria, de grafite, dos cinzas e das cinzas, da limpidez da matéria que transforma a superfície de espelho opaco, luz aprisionada. A materialidade áspera é fruto da ação do acaso, trabalho do tempo, obsolescência, lixo, desprezo. O gesto manual, pelo grafite, é o sujeito de uma ação que projeta no espaço a noção do Ideal.  Substantivo, ele recria, re-constrói a paisagem, a montanha, aspira à totalidade.  O gesto intelectual, através da incorporação desses “anti-objects-trouvés”, carregados de significados éticos, é o objeto da realidade cotidiana reciclado; ele adjetiva a ação do artista: as superfícies irregulares, corroídas e carcomidas pelo tempo, justificam a razão de ser da paisagem ao mesmo tempo que pontuam e equilibram a síntese interna do artista.

 

c) as minas e o mundo: a obra fala das montanhas da minha terra, de todas as montanhas da Terra: todas as paisagens do mundo eu encontro aprisionadas na minha retina, nas minas gerais da memória. A província, aqui, não é ponto-de chegada; ela é a base, o desejo primeiro, a ação imediata, o impulso. O artista recupera a montanha da província e o resultado desse trabalho é a construção de um modelo perfeito de todas as montanhas, de seus eternos mistérios e inusitados segredos. Eis a chave: o particular, através da construção, invade o geral, afirma-se como instrumento amplo de comunicação, patrimônio comum. Todo o caos acaba por gerar uma ordem, um ritmo, uma ação, da mesma forma que toda ordem acaba por gerar, em suas entranhas, a expectativa do caos, da surpresa, do inusitado. O mundo, portanto, não está afastado da minha província. Ao contrário, através dela, da descoberta deste estado bruto do ser, o artista se identifica, belos e vastos horizontes que formam todas as paisagens e belezas alcançadas pelo olhar.

 

Esses são alguns jogos, algumas reminiscências, algumas provocações. Outras existem, outras devem ser criadas. A obra é fruto da leitura que ela acaba por elaborar. Todas as verdades são suspeitas, todas as certezas acabam por revelar a dúvida.  Essa é a única regra do jogo, essa é a estratégia da arte. É preciso, antes de tudo, envolver-se pela ação que transcorre diante de nós, em silêncio e recomeçar, com a ajuda do tempo, a descobrir todas as cores que se revelam entre a ordem e o caos, entre as paisagens e as matérias, entre as minas e os mundos, entre os cinzas e as cinzas. Mas isto já começa a sugerir um outro jogo, uma outra história...”La nave va”.

 

Marcos de Lontra Costa

Diretor do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

BrasÍlia, 1990

 

 

 

 

 

 

Eymard Brandão trabalha atualmente com materiais descartados de nossas indústrias, e isto, nos comunica um sentimento novo. Acrescenta de modo idêntico tiras de metal que valorizam ainda mais as composições. Na maioria das vezes o material empregado já não é “médium” para o artista, mas o próprio tema. Recuperando-o em sua essência, eleva este material à obra de arte, onde ele ganha significação ambígua. Dá-nos deste modo a sensação da construção de uma realidade fenomenológica, não imitada, mas reproduzida com o uso destes materiais que despertam simultaneamente nossas lembranças e nossa participação tátil visual. Isto nos convida a fruir, não sabemos de início se física ou conceitualmente de deus trabalhos, e nisto reside a qualidade e a poesia de sua obra.

 

Sara Ávila

Artista plástica

Belo Horizonte 2014

 

 

 

 

 

 

A SONORIZAÇÃO DO CLARO-ESCURO

 Desde sempre, a re-leitura do real. A extração. A busca. O risco. A velocidade e a sintetização da forma. O papel que suporta a fita. Efeito “noir” sobre o branco do papel. Já em 1985, cobertura preta e branca sobre a extensão da tela. Anteriormente, a divisão do ar e da terra, em círculos e quadrados. A borracha passa, agora, a abrir espaços sobre a negritude total da superfície. Um lado ora se permite farto, ora se permite vácuo, ora parco, ora denso; e acaba por reunir, na perfeição da abóbada, a totalidade do mundo.

          Em Eymard Brandão a divisão se faz clara, antígona-antiga divisão de fora e de dentro, momento truncado do ser em tempo de expressão final. Forte efeito preto branco, como as antíteses que emolduram os fatos da história.

          Peças de grafite de efeito metálico vão domando o espaço. Vermelho, pincelada sanguínea assinalada e intrusa entre as duas partes, a chegada de um novo tempo. Sobre o grafite, o retorno da cor vermelha sensual e retumbante. Um tiro no coração da tecnologia liberta, sangue e ferrugem, a contida mensagem: redondos e mordazes pedaços que flutuam. Indiferentes claros e escuros. Obscuros enigmas e fantásticos clarões.

Eymard Brandão se permite a ótica da ilusão que, para o observador, adentra seu espaço visual com efeitos de nesga de luz. Ele desnuda o mesmo objeto em dois tempos e o refaz em momentos consecutivos, como a mutabilidade dos seres. Em um só espaço, o mesmo instante em brilho e sombra, metal-fantasia em branco e preto.

          A cor belisca e morde na textura exata. No desejado instante. A lata sorri sua ferrugem e sua prata. A porta se abre.

 

Rogério Zola Santiago

Escritor e jornalista

Belo Horizonte, 1990

 

 

 

 

 

 

DO DISTRAÍDO AO ATENTO

Pode-se dizer que os trabalhos de Eymard Brandão não foram feitos para olhares distraídos. Ou melhor, pode-se dizer que as peças do artista mineiro possuem a capacidade de transformar todo olhar distraído em olhar atento.

Por que? Porque cada um destes trabalhos reivindica para si a atenção sobre seu processo de produção, o que evidencia a noção de arte como organizadora do caos.

Ali os materiais – quase sempre resíduos da sociedade contemporânea –, e os   pigmentos tendentes à dispersão e ao aniquilamento, reencontram uma significação, uma razão de permanência no tempo e espaço a partir da ordem elaborada pelo artista.

O sujeito, frente a um destes trabalhos, de repente sente-se preso pela força daquela organização, tomando consciência – através do olhar que não se cansa vaguear pelos sulcos, pelas sutis depressões do campo plástico – do objeto à sua frente como pólo de ressonância, de exteriorização da sensibilidade do artista (o outro sujeito) que executou.

Neste sentido, e através da força poderosa mas sutil dos trabalhos de Eymard Brandão (que ultrapassam, que vão além das noções simplórias, restritivas e convencionais de pintura, desenho, etc.), pode-se voltar a pensar que o  objeto de arte, mesmo quando não trabalha com um código pré-estabelecido – ou mesmo quando inaugura um “protocódigo” que não se propõe passível de interpretações objetivas – pode funcionar como elo de ligação sensível entre dois sujeitos, como ponto de intersecção  entre a sensibilidade do sujeito-artista que elabora o objeto, e o sujeito-observador que o percebe.

Isto é arte. Ou melhor (parafraseando Ronaldo Brito), arte é que é isto.

 

Tadeu Chiarelli

PUC- SP

São Paulo, 1989

 

 

 

 

 

 

Mard de Histórias e Lembranças do Futuro

Pra mim, falar sobre Eymard e seu trabalho é como dizia amigo meu, em Paris: mais fácil que abrir porta de metrô... Porque elas se abrem sozinhas...

Pra começar, Eymard, como todo grande artista, tem nome de grande artista: Eymard, ponto. O Brandão é um brasão que ele, nem nós precisamos usar.

Já o trabalho de Eymard me emociona especialmente porque me identifico com ele, tanto como jornalista, como artista-plástico “bissexto e de domingo” que sou.

Eu e Eymard gostamos dos mesmos materiais.

Gostamos de dar uma segunda vida aos materiais, talvez fadados ao nunca, ao lixo ou à reciclagem.

Gostamos principalmente do metal.

Vejo que, desta feita, Eymard ganhou “algumas matérias primas cedidas pela V&M do Brasil”...

Que inveja, mas saudável!

Eymard e eu gostamos de ressuscitar matérias primas e coisas, sejam da V&M, do Brasil ou não.

Ele, mais do que eu e com mais competência.

E desta vez em grandes formatos! É a grande arte, como diria Rubem Fonseca...

Mas, no fundo, sabemos que, ao dar uma segunda vida às “coisas e matérias”, conseguimos o que, em nossas vidas, é impossível: conseguir uma segunda chance...

ps: Uma segunda, ou uma primeira...

 

Walter Navarro

Jornalista e artista plástico

Belo Horizonte, 2010

 

 

 

 

 

 

...Há uma hora estou perdido em reflexões diante destes borrões brancos, destes retângulos pretos, verdes, vermelhos. Destes riscos que parecem uma seara mágica de canas e capins...

 

Oswaldo França Junior

Escritor

Belo Horizonte, 1985

 

 

 

 

 

 

EYMARD BRANDÃO NA ÍNDIA

            Visitei a exposição de Eymard Brandão na Galeria da C/Arte, na Pampulha, em Belo Horizonte. Num espaço muito próprio para seus quadros, onde se destaca a busca do aproveitamento de recursos da terra, fui relembrando acontecimentos que, de certo modo, marcaram a arte de Eymard.

Sua viagem à Índia em 1979 certamente contribuiu para esse trabalho contemplativo que busca na terra a sua referência. Eymard tem seu atelier em Nova Lima e, nessa região onde as mineradoras estão sempre em busca do lucro extraído da terra, Eymard, serenamente dela extrai sua arte. Recolhe tintas e pedras do chão de Minas e, como alquimista, vai construindo painéis coloridos que, vistos em seu conjunto, alinhados na exposição livro-objeto, me recordam os sáris da índia. A Índia está presente nessa exposição também no depoimento do próprio artista em seu livro da série Circuito Atelier. Transcrevo em seguida trechos desse texto:

“A ecologia não surgiu em meu trabalho. Foi sendo a ele incorporada gradativamente, por uma série de fatores externos e internos. Estava me preparando para fazer o curso de pós-graduação em Londres, no Royal College of Arts, quando assisti a uma palestra de Maria Helena Andrés. Nessa palestra ela abordava, entre outros assuntos, uma escola que conheceu no sul da Índia chamada World Academy of Wonder (a palavra wonder significa uma forma específica de percepção na arte). Essa escola era uma das unidades de uma universidade que englobava diversas áreas como arte, literatura, música, fotografia, dança, teatro, etc. Mudar os referenciais e viver esse encontro de Oriente e Ocidente através da arte passou a me atrair profundamente. Enviei o currículo e recebi uma resposta promissora, juntamente com a explanação dos cursos oferecidos. Consegui uma bolsa de estudos e tive, naquele país, uma experiência de arte e de vida extremamente gratificantes. ”

“Estudantes do mundo inteiro conviviam nessa escola, com novas possibilidades de lidar com seu potencial. Estruturas circulares eram desenvolvidas dentro de padrões milenares e, ao mesmo tempo, contemporâneas, para o trabalho realizado nas formas de ensino ali experimentadas. A história da arte era abordada pelo aspecto psicológico. E as cores da natureza eram relacionadas com nossas emoções, para depois serem aplicadas no papel, na tela ou em formas na terceira dimensão. Com folhas e flores, construíamos belas mandalas. Uma estrada pela floresta levava a um grande e bonito lago. Em frente a ele, subindo para a montanha, uma placa de madeira indicava a entrada da escola. Nela, sugestivas palavras nos convidavam a deixar as sombras de nossos egos para trás e lidar com as formas de estudo ali propostas, onde conviver com os ritmos e mistérios da natureza eram um ensinamento diário, por ser o universo em si, como um próprio campo no qual o jogo cósmico da arte vem acontecendo desde tempos imemoriais.”

Relembrando minhas viagens à Índia, vou encontrando referências também na arte de Eymard Brandão que é, sem dúvida, uma manifestação de seu próprio self de artista. A palavra self, usada por Jung para significar o centro psicológico do “ser” tem diferentes denominações nas diversas religiões do mundo. Significa o Cristo interno dos cristãos, o Atman dos hindus, a Luz interna de Krishnamurti.

O verdadeiro “eu” se encontra na parte interior, mais profunda de nosso ser, nos disse Sri Aurobindo em seus ensinamentos.

 

Maria Helena Andrés

Artista plástica

Belo Horizonte, 2012

 

 

 

 

 

 

EYMARD BRANDÃO: SINFONIA EM PRETO E BRANCO

             A exposição de Eymard Brandão em curso na Galeria Itaú, revela que todo seu desenho atual transpira uma tendência forte da simplificação traduzida na relação dos elementos formais e da gama de cores.

Ainda que ligado a uma proposta que vem desenvolvendo há bastante tempo – a interpretação da fenomenologia da natureza – presente se uma séria determinação de mudança.

Uma nova visão restabelece o enfoque do artista, impregnando o seu trabalho de uma energia mais compacta, uma força revitalizadora que, sem estabelecer quaisquer traços de seccionamento e/ou ruptura, inaugura um campo novo de explorações.

O despojamento do binômio preto e branco, único e curto voo a que se permite o artista, a discreta interferência que efetua no plano grafite, através e eventuais incisões à borracha personaliza e dá requinte ao conjunto ora apresentado.

Acrescenta-se a isto uma nítida posição subjetiva na colocação do tema proposto, um dispositivo francamente aberto ao jogo de insinuações, o que facilita e convida o público a lançar-se também nas aventuras da interpretação

 

Celma Alvim

Jornalista e crítica de arte

Belo Horizonte, novembro de 1985

 

 

 

 

 

 

INTEGRAÇÃO

           Na fugacidade do presente o tempo explicita ainda para o homem a projeção de passado e permite a projeção de um futuro. Alterando as coisas, o tempo imprime idade a elas e provoca diferentes estados a tudo sucessivamente. Por ser assim, sua ação sobre a natureza dada resguarda o passado, enquanto inaugura, em cada momento, um tempo novo que exige uma nova leitura.

       É neste sentido que o atual trabalho de Eymard Brandão tem sido o de fixar determinados instantes desta natureza em transformação, onde o passado dos materiais não é recusado nem ignorado, mas consumido na manufatura de um produto que nos suscita certa nostalgia do próprio futuro.

       Ao apropriar-se de restos de papéis coloridos pelo tempo, de folhas secas em processo de desintegração, a obras resgata vivências íntimas, supostamente esquecidas, e solicita do espectador uma postura que retenha na memória, mesmo individual, cada momento presente, que mesmo fugas alinhava com o fio da afetividade a história.

      É da integração criativa destes dois materiais (papéis e folhas antigas) que seu trabalho restabelece o tempo, tanto como elemento de reflexão como de aproximação. Suas interferências gráficas redimensionam, em qualidade, a proposta, pois ao traçar círculos e triângulos, o artista reconhece tais figuras como formais, nunca criadas, mas buscadas em experiências anteriores.

       Há que se reconhecer sempre diante da produção artística o processo que a precedeu. Neste caso podemos identificar um exato domínio da técnica, um profundo reconhecimento da lei da natureza, uma interferência reclamada e não acrescentada e uma criação que se efetiva por meio da síntese.

      E tudo somado sensivelmente, só poderia resultar num trabalho tão simples e claro que nos ultrapassa, como a obra de Eymard Brandão.

 

Bartolomeu Campos Queirós

Escritor

Belo Horizonte, 1982

 

 

 

 

 

 

VISÃO INTERIOR

             O homem reflete, medita, perquire, e é de sua percepção que ele extrai os elementos que irão compor sua linguagem e seu universo íntimo. Sua emoção diante das coisas e dos seres - por ser constante - torna concreta a beleza sempre renovada da arte, onde chegada é simultaneamente partida e onde fim pode significar começo.

             Não foi gratuitamente que Eymard Brandão chegou à abstração. Mesmo porque, não fosse precedida de longa caminhada, a linguagem abstrata não faria sentido. Desde suas fases anteriores, dos desenhos de conotação pop, das interferências na paisagem, das mandalas e das folhas trabalhadas pelo tempo, este caminho se anunciava clara e imperiosamente. A abstração não é escolha aleatória, é antes consequência e desenvolvimento de um pensamento estético.

             O que se vê nesta exposição é essa própria consequência: o aprofundamento de sua experiência pessoal. O artista sem ruptura e sem quebra de valores, amplia e torna múltipla sua visão anterior. Dotados de maior acuidade, seus instrumentos de percepção inauguram, como se fosse pela primeira vez, o seu e o nosso olhar. A cor adquire função nova nestes quadros, como que comunicando timbres aos valores gráficos: cada tom, embora repetido, embora tirado da mesma palheta, tem carga expressiva própria e é outro e vário.  Até o preto sobre preto de alguns trabalhos, sugere modulações, graduações de tons e semitons, e quase que cromaticamente se ordena. Verdadeiros centros de gravitação, as áreas coloridas são focos Poe onde os olhos adentram o quadro. Incisões, texturas ou simples chapados, elas bralham, elas refulgem, e criam distâncias e convergências, que, ora velada, ora eloquentemente, estabelecem permutações e analogias insuspeitadas: forças da natureza, formas em gestação, cristais e paisagens crepusculares nos passam pela retina, a lembrar-nos que “o homem, reside também naquilo que vê”.

            Desenhando com a borracha na superfície trabalhada do papel, o artista cria vibrações, reflexos, e compões relações de movimento e ritmo. Daí o dinamismo destes trabalhos, onde a luz não é sugestão, mas antes afirmação densa e poderosa a iluminar o quadro, a revelar o espaço pictórico e prolonga-lo além, indefinidamente além de seu verdadeiro espaço.

              De que onírica ou palpável paisagem foram arrancados estes verdes, estes vermelhos e estas formas que se organizam plasticamente no espaço limitado, ilimitado do papel e que provocam-nos desafiadoramente o olhar?      E sempre misteriosa a criação artística e em vão tentamos desvendar suas razões e sua insondável geografia. Sabemos somente que os homens se descobrem, se renovam e se perpetuam através de suas obras, através daquilo que fizeram um dia - com suas mãos com suas mãos frágeis e eternas.

 

Affonso Henrique Tann Renault

Professor de literatura

Belo Horizonte, 1985